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20 de fevereiro de 2017 às 08:00.

Ary Barroso, quem diria, foi “gongado” em Manaus

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Desde os 18 anos de idade, completados em 1949, Amélia Vitória era requisitada para tocar em bailes e festas de Manaus. Talentosa, fez parte do “Trio Baré”, composto por Chiquinho (contrabaixo), Hércules (bateria) e Amélia Vitória (piano). O Trio acompanhava os cantores trazidos por Bianor Garcia – funcionário da Rádio Baré – que para cá vinham sem seus músicos: Ivon Cury, Marlene, Linda Batista, Cauby Peixoto e, já nos anos 1960, Waldick Soriano. Amélia Vitória acompanhou diversos cantores amazonenses em bailes e festas em geral, como Júlio Otávio e Arminda de Oliveira. O Trio Baré chegou a tocar com o famoso “Trio de Ouro”, na ocasião composto por Herivelto Martins, Nilo Chagas e Noemi Cavalcanti. Amélia Vitória também fez dupla de apoio com o renomado pianista amazonense, Júlio Aleixo.

Três passagens marcantes dessa notável pianista, que lamentavelmente pouco ou nenhum registro tem na vida musical de Manaus: naqueles anos, o Atlético Rio Negro Clube aceitava sócios militares desde que fossem oficiais. Aparentemente um impasse sem solução, já que a requisitada pianista, que lá com frequência se apresentava, era casada com o sargento Henrique, companheiro e companhia inseparável em todas as suas apresentações. Para tê-la, ao clube restou uma opção: quebrar a regra.

Sob a alegação de que não pagava cachê para sócios, o clube barriga-preta não a remunerava em suas apresentações. Decidiu que lá não mais tocaria. Pois bem, Cauby Peixoto, numa de suas vindas à Manaus, tinha duas apresentações marcadas: a primeira às 10hs da noite, no Atlético Rio Negro Clube; a segunda, à 1h hora da madrugada, no Las Vegas, um clube que ficava na Av. Joaquim Nabuco entre a Rua Ramos Ferreira e a Rua Major Gabriel. Cauby e Amélia lá haviam ensaiado a tarde toda.

Na hora da apresentação no Rio Negro, Cauby avisou que só entraria em cena se acompanhado da pianista. Emissários do clube foram, às pressas, busca-la em casa. Enquanto ela ainda se aprontava para a apresentação no Las Vegas, o sargento Henrique assumiu o papel de empresário: “Amélia só tocará se todos os cachês antigos forem pagos. E mais! Para acompanhar o Cauby hoje o cachê será dobrado”. Os rionegrinos estrebucharam, mas pagaram todo o atrasado.

A orquestra de Ary Barroso, de volta dos EUA, era a atração do Rio Negro. Amélia Vitória havia sido contratada para tocar nos intervalos de sua apresentação. Ary Barroso era um tremendo sucesso nacional, mas só tocava samba. Já por essas terras de Panchito Ubaldino, a preferência era dançar colado ao som de bolero. Quando o intervalo chegou, o “Trio Baré” fez o previsível, tocou boleros. A pista encheu de “ bailadores” e, ao final, aplaudiram e pediram bis.

Ao retornar, Ary Barroso, um tanto incomodado com a reação do público e, quem sabe pensando que estava a apresentar o seu concorrido Programa de Calouros – onde costumava aprovar ou “gongar” os postulantes – disse-lhe com rispidez: “é um absurdo a senhora tocar música estrangeira para o pessoal dançar”. Na presença de algumas testemunhas, Amélia Vitória respondeu ao autor de “Aquarela do Brasil”: “Eu sou música e toco aquilo que o pessoal gosta de dançar”. Pois é, os papéis se inverteram, aqui o “calouro” Ary Barroso foi ”gongado”.

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