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14 de dezembro de 2016 às 08:00.

Reminiscências

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Iniciei minhas atividades estudantis nos primeiros anos da década de 1980, em Porto Alegre-RS, enquanto estudante de Engenharia Civil, na Pontifícia Universidade Católica – PUC, e de Matemática, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por escolha da minha família, no dia 7 de julho de 1982 nós viajamos para Manaus, cidade onde já havíamos morado entre os anos de 1975 e 1978.

Nos primeiros meses daquele ano, ocorreu um grande movimento em defesa do Restaurante Universitário da então Universidade do Amazonas (UA), que ficou conhecido como “A Luta Pelo Bandejão”. A revolta adquiriu proporções significativas de mobilização, contagiando a grande maioria dos estudantes de todos os cursos existentes no Campus Universitário.

No segundo semestre, imediatamente me relaciono com um grupo de companheiros dos cursos de Engenharia Civil, Matemática e Agronomia, dentre outros da área de exatas, também no Campus Universitário. O clima vigente agora estava todo direcionado para as eleições de governador a vereadores.

O meu primeiro contato com um dirigente estudantil foi com o presidente eleito da “Engenhoca”, Omar José Abdel Aziz, atual senador da República. O encontro deu-se através do meu falecido irmão, Jôner Martins Veiga Duarte, recém-eleito, com Aziz, diretor daquela organização estudantil da Engenharia Civil. Na semana seguinte, Omar me convidou para conhecer a sede do jornal “A Tribuna Operária”, situada na rua Simão Bolívar, 231-A. Surpreendentemente, a sede ficava ao lado da Secretaria de Segurança. Lá estavam figuras como Eron Bezerra, Vanessa Grazziotin, Lúcia Antony, George Tasso e tantos outros. O periódico circulou nacionalmente de outubro de 1979 a 1988 e se proclamava “uma tribuna de luta a serviço do que há de melhor no movimento operário e popular”.

Era uma reunião “ampliada” e tinha como um de seus objetivos a cooptação de novos membros para a defesa da causa comunista. O jornal, na realidade, era um canal institucional que permitia a difusão das ideias do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), sem que este estivesse legalizado. Para mim, “A Tribuna da Luta Operária” não era uma novidade, pois já o conhecia desde o Rio Grande do Sul, onde minhas vinculações estavam mais próximas das correntes trotskistas.

A Tribuna nasceu de uma visão estratégica de integrantes do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que estavam exilados na Albânia desde o ano de 1976, ocasião em que ocorreu a morte dos dirigentes Pedro Pomar e Ângelo Arroyo no episódio conhecido como Massacre da Lapa, por ordem do regime militar”. (SANTOS:2006)

Nos três meses subsequentes, eu já era reconhecido publicamente como colaborador do jornal “A Tribuna da Luta Operária”, momento em que passei a ser rotulado – assim como todos os demais colaboradores – de “tribuneiro”. Anos após, e por alguns meses, cheguei a ser correspondente do jornal no Estado do Amazonas.

No final de setembro de 1982, o Partido Comunista do Brasil designou um de seus militantes para me entregar um conjunto de documentos da literatura leninista-marxista, como os estatutos do partido, o Manifesto Comunista e diversos outros livros. Duas semanas após esse primeiro contato, foi formalizado oficialmente o convite para que eu ingressasse nas fileiras do partido, o qual aceitei.

Na sequência dos fatos, ocorreu uma engenharia política para que eu concorresse a uma das duas vagas de delegado que iria participar do 34º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado na cidade de Piracicaba, em São Paulo. Eu e o estudante trotskista Tarcísio Leão Souza fomos eleitos pelo curso de Matemática.

A “Viração” era a corrente principal e hegemônica no Movimento Estudantil, nas universidades públicas e privadas da década de 1980. Não era um partido, mas uma tendência política ligada ao PCdoB. Fez história pela invencibilidade e pelo espírito guerreiro de seus membros, fossem ou não ligados ao PCdoB. Depois foi substituída pela UJS (União da Juventude Socialista), braço político do partido.

Almir de Souza Maia era o vice-reitor da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) na época daquele congresso. No dia 29 de abril de 2014, sua enorme preocupação com a organização do evento foi revelada ao site “Sou Repórter”, laboratório do curso de Jornalismo da UNIMEP. Assim como no congresso anterior, havia a possibilidade de uma intervenção policial para que o evento não acontecesse: “A UNE era uma entidade visada pelo regime. Era considerada ilegal e subversiva. Era atuante e incomodava o regime em vigor, enquanto trabalhava para sua reconstrução e demonstrava a força da participação dos estudantes no processo de redemocratização brasileira”.

Antes de sua realização, havia a preocupação dos organizadores quanto às possíveis consequências, afinal, estavam sendo esperados cerca de quatro mil estudantes. Havia muitos detalhes preocupantes: logística, hospedagem, alimentação, transporte… além dos quesitos segurança e risco de intervenção. Era véspera de eleições para governadores e o presidente da UNE era Javier Alfaya, um cidadão espanhol, que tinha sua liberdade completamente vigiada e diariamente precisava comparecer à Polícia Federal, correndo o risco constante de ser expulso do Brasil. Não bastassem esses motivos, havia as curiosidades da época e especulações envolvendo o governo. Esses fatores “justificaram” o uso da espionagem pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP), para obter informações sobre o que estava sendo discutido e os rumos não só da UNE, mas do Brasil.

O 34º Congresso da União Nacional dos Estudantes se caracterizou pelo clima tenso e pelo ineditismo. Foi naquele congresso que a UNE elegeu a primeira mulher como presidente da entidade, a baiana Clara Maria de Oliveira Araújo. No ano seguinte, participo do 35º Congresso da UNE, que elege como presidente o estudante e amigo Renildo Calheiros, irmão do atual presidente do Senado, Renan Calheiros. Desta vez, minha atuação foi como delegado do curso de Engenharia Civil, assim permanecendo por mais quatro sucessivos congressos, dentre tantos outros eventos que tive a oportunidade de participar.
Esse período de atividade estudantil se caracterizou pelo meu quase total abandono da atividade acadêmica, já que havia estabelecido uma relação exclusiva de militância profissional e exercia na plenitude a atividade partidária. Antes de sair do PCdoB, no dia 24 de fevereiro de 1988, cheguei à condição de secretário político, que, naquela época, na estrutura partidária, representava a função de maior relevância dentro da Universidade do Amazonas.

Entre os anos de 1982 e 1988, por consequência, mantive estreita relação dentro da organização partidária do PCdoB. No meio dessa trajetória, por uma decisão estratégica, na condição de dirigente do partido, larguei o curso de Engenharia Civil e fiz vestibular para Jornalismo. O objetivo era “tomar” o Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) que, àquela altura, tinha nove centros acadêmicos, todos vinculados ao PT e ao PCB, o “Partidão”. No ano seguinte, já tínhamos sete dos nove centros acadêmicos.

Naquele período, tive a oportunidade de ser conselheiro universitário, diretor de Entidades Estudantis, diretor do Diretório Central dos Estudantes – na época, mais conhecido como Diretório Universitário (DU) – e coordenador Nacional dos Estudantes de Engenharia. Naturalmente, todos os companheiros do partido e dezenas de simpatizantes estavam envolvidos em todas as lutas políticas, ultrapassando os muros da Universidade. A minha militância estudantil se esgota com a minha militância partidária, em 1988.

Bem, fui compelido a resgatar parte de importantes acontecimentos que tive a oportunidade de ser um observador privilegiado. Tomei a decisão de relatar a versão dos fatos descritos pela imprensa amazonense entre os anos de 1980 a 1983. Ressalte-se que a data mais importante deste período é o dia 20 de setembro de 1983, quando ocorreu a maior manifestação da história estudantil. Nessa época, o governador era o senhor Gilberto Mestrinho e o prefeito biônico, Amazonino Mendes.

De início, o Instituto publicará – cronologicamente e em dezesseis capítulos – o passo-a-passo que precedeu os acontecimentos até o dia da “Batalha da Praça da Matriz” (20/09/83). A imprensa não teve nenhuma preocupação em ouvir os envolvidos, sejam estudantes secundaristas, universitários, professores e usuários de transporte coletivo. Após mais de três décadas o IDD disponibilizará uma sequência de entrevistas resumidas de diversos participantes daquele período.

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