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14 de fevereiro de 2015 às 09:30.

Série Especial – Movimento da Discórdia Baré (MDB)

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O POSSESSO

Arthur Virgílio Filho

Muito me estimularam, me ensinaram, me impregnaram de obrigações para comigo mesmo os ensinamentos de meu pai no seu comportamento inteiriço como juiz e cidadão. Seu desapego às coisas materiais, morrendo sem deixar casa própria para minha mãe, quanto mais terrenos valendo milhões de cruzeiros; sua incorruptibilidade, expressa na frase, inserta no seu discurso de posse como Desembargador, epitáfio consagrador do seu túmulo: “Ao envergar a toga de juiz proferi, como os monges franciscanos, um voto de pobreza”; sua noção de honra como um colorário do dever, com a natural modéstia e simplicidade definida por José de Alencar como a negação de vanglórias a insuflar a vaidade, cingindo-se ao íntimo contentamento de si mesmo, seiva robusta de que se nutre sua existência; sua bravura e independência ao longo de 46 anos de atividade judicante, 25 dos quais no interior do Estado, parafraseando o excelso Ministro do Supremo Tribunal Federal, Hermenegildo de Barros, sempre que enfrentava os poderosos para decidir praticando justiça: “Nunca pedi, não peço e não pedirei nada a governos. Sou juiz”; seu sentimentalismo másculo, alcandorado pela sinceridade que o levava a chorar os seus mortos queridos (Hermenegildo de Barros, Araújo Filho, comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, Hamilton Mourão, Jorge Carvalhal, Gaspar Guimarães, Manoel Carpinteiro Péres, entre outros), ano após ano, em crônicas das quais  escorriam lágrimas de saudade, pétalas de rosas transformadas em louvores merecidos aos que se foram antes dele, sussurros de orações de quem possuía fé religiosa sem utilizá-la como aparato  e escudo; sua solidariedade humana com os perseguidos, os vilipendiados, os injustiçados pelas armadilhas do destino, na expressão singela que foi o norte de sua conduta: “Vou com frequência ao infortúnio dos meus semelhantes e raramente as suas vitórias e alegrias”.

Ufano-me em proclamar com o tenho feito inúmeras vezes, que o desembargador Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro pode repousar tranquilo no seio da eternidade. Não desmereci até hoje o nome imaculado que recebi como única herança e não o desmerecerei até o fim dos meus dias. Já não digo por não haver praticado atos de corrupção visando ao enriquecimento ilícito, verdade que só o esquizofrênico alcoólico Fábio Lucena não aceita, no seu desequilíbrio mental irremediável.

Os militares e civis que arquitetaram, levando à vitória, o movimento de 1964, não tinham porque me poupar. Na época, como fiz no artigo publicado domingo, eu os desafiei com minha altivez e coerência estendendo o desafio aos que aderiram, ocupando postos de mando no Amazonas, como o meu arqui-inimigo Arthur César Ferreira Reis e seus secretários. Os anais do Senado registram discursos meu, para destacar um que tenho ao alcance, proferido no dia 2 de abril de 1964, quando o Presidente João Goulart já se encontrava viajando para o Uruguai, do qual pinço alguns tópicos publicados na edição doa dia 3 do “Diário de São Paulo”, órgão associado da capital bandeirante:

“Estive ao lado de S. Exa. até os últimos minutos, enquanto ele se encontrava em Brasília. Fui leva-lo ao aeroporto, e se ontem defendia o seu nome com a veemência de que sou capaz, hoje mais do que nunca estarei nesta tribuna enquanto puder falar, enquanto me permitirem falar, enquanto a liberdade imperar neste país. Estarei nesta tribuna para defender o seu nome, o seu governo e a sua atuação em favor do povo”.

“Prendam-me amanhã, prendam-me quando sair daqui, porque preciso desse galardão, como democrata. Preciso levar essa medalha aos meus filhos. Preciso que meus filhos saibam que meu país estava em plena revolução, em plena desordem, em plena ilegalidade, dominado pela força, pela violência, e tive coragem de vir à tribuna afrontar essa força, essa violência e dizer bem alto que não temo, porque estou com a verdade, estou com o direito, com a justiça, com a liberdade, com a Constituição, que eles juraram defender e espezinharam e esmagaram com os pés”.

Quem se expressou assim naquele período de total insegurança e se expressou assim quando a segurança ainda é uma icógnita, não teve medo de nada e de ninguém. Inclusive de dois grandes jornais, de imensurável poderio econômico-financeiro, que enfrentei com altanaria – “O Globo” e “O Estado de São Paulo” – embora como é do meu feitio, sem caluniar, sem injuriar, sem mentir, por isso que tais armas são próprias de tipos como esse esquizofrênico alcoólico Fábio Lucena, trapo humano que há muito perdeu a honra e dignidade e que, com quarenta anos de idade, cara marcada por merecido castigo, trôpego e trêmulo como se arrasta pelas ruas de Manaus, não resistiria a um empurrão de um menino de doze anos.

Mas não basta ao homem  não roubar, não alugar sua pena para fins escusos, não ser dependente de apetites empresariais suspeitos, não promover falsas campanhas moralizadoras, para ser considerado digno. Além de não praticar esses atos visando ao enriquecimento ilícito ou simplesmente ganhar dinheiro – o que não se adapta ao esquizofrênico alcoólico – há que não ser um mentiroso repelente, um difamador contumaz, um caluniador sórdido com Fábio Lucena, que só não é mais repelente e sórdido porque é louco.

Como meu pai, que como disse, assim me ensinou sempre fui de comparecer perante aos amigos e conhecidos merecedores do meu apreço, nos momento de aflições, dificuldades, apreensões, aborrecimentos para eles. As visitas constantes não afinam com meu temperamento e sou incorrigível faltoso em matéria de relacionamento epistolar mesmo quando era portador de mandato eletivo. Nos momentos em que o conforto moral de uma presença se reveste de alta significação para as pessoas de sensibilidade, porém, sempre estou presente, sem questionar posições políticas ou assemelhadas. São inúmeros os exemplos recordados em minha memória.

Cheguei certa tarde ao Senado e Flávio Brito me informou que o falecido Senador José Esteves iria atritar-se com o atual Governador José Lindoso ambos meus adversários políticos. Antes de pensar no subalterno aproveitamento do escândalo prejudicial à imagem dos dois conterrâneos com reflexo na grei partidária que eles integram, favorecendo, via de consequência, eleitoralmente meu partido, perguntei por que Flávio Brito não havia interferido para conter o atrito. Ouvindo a resposta de que não poderia fazê-lo por estar desavindo com um deles, corri à Câmara Federal na esperança de evitar o desforço. Infelizmente cheguei tarde. Com isenção falei com Lindoso e Esteves lamentando a ocorrência, acrescentando me sentir frustrado por não ter conseguido evitar o incidente.

Em 1964, inspirado pelo mesmo impulso de solidariedade, dirigi-me ao quartel do 1º BIS a fim de visitar os presos políticos. Desprezei “conselhos” de alguns amedrontados correligionários que procuraram justificar a ingerência numa decisão pessoal irremovível pretextando que eu deveria preservar meu mandato, que os companheiros do Amazonas precisavam de mim no Senado, etc. Redargui quase áspero: não teria coragem de olhar-me no espelho se não fosse visitar os presos. E fui.

Lá estavam Arlindo Porto, meu amigo, redator-chefe de “A Gazeta” nos quatro anos em que esse jornal esteve sob minha direção; Cid Cabral, também velho amigo de quem sou freguês bissexto na sua alfaiataria; Amazonino Mendes, filho de um amigo e ex-colega na Assembleia Legislativa, Deputado Armando Mendes; Fábio Lucena e outros, entre eles o jornalista e escritor Aldo Moraes. Externei minha solidariedade a todos, amigos, conhecidos, desconhecidos, apertando a mão de Aldo Moraes, que em 1956, doze anos antes atentara contra a minha vida. Fora, no entanto, é bom que eu proclame, um confronto leal. Aldo telefonou-me dizendo que ia à redação de “A Gazeta” me matar. Eu, além de Deputado Estadual, era Secretário de Interior e Justiça, pasta a que estavam subordinadas as Polícia Militar e Civil: meu irmão Helso do Carmo Ribeiro exercia o cargo de Delegado de Segurança Pessoal.

Bastaria que eu houvesse, já não digo dado uma ordem ao Comandante da PM e ao Chefe de Polícia, mas comunicado a ameaça ao meu irmão. O desafeto não chegaria a quinhentos metros perto de mim. Não recorri, no entanto, à força à minha disposição. Era um caso pessoal, assim o resolvi. Em posição de legítima defesa disparei meu revólver, que logo enguiçou, quando Aldo Moraes, caminhando em minha direção, com a mão no bolso segurando sua arma, tentou sacá-la. Medo? Claro que senti, como ser humano e como pai, Arthur Virgílio Neto, meu filho mais velho, tinha 10 anos de idade. Ademais só os loucos não sentem medo diante do perigo, sendo exceção à regra, para confirma-la, o esquizofrênico alcoólico Fábio Lucena que, mesmo alucinado pelo permanente estado de embriaguez em que vive, é e foi sempre um poltrão, não é e nunca foi Homem.

Parado quase no meio da rua Saldanha Marinho tentando desenguiçar meu revólver, esperei que o inimigo esgotasse a carga de seu para investir contra ele, que se afastou, apressado, pela Avenida Eduardo Ribeiro, tudo assistido pelos diretorianos do PSD, meus adversários políticos, alguns graças a Deus vivos como Manuel Barbuda e José Veiga, os quais assistiram postados à janela do prédio em frente, fora da linha de fogo, a refrega.

Saí ileso e, cessado o entrevero mais uma vez não usei a força à minha disposição para uma vingança covarde. Proibi meu irmão e os policiais civis e militares, que logo a seguir iniciaram intensa caçada para matar Aldo Moraes, de levarem a cabo seu propósito. Aldo Moraes, que não era um Fábio Lucena, mas um homem corajoso, não tentou outra investida. Inimigos leais se admiram reciprocamente, embora possam se matar. Depois da visita aos presos políticos ele só tinha palavras de elogio e exaltação à minha pessoa. Sua última companheira, graduada funcionária da Secretaria de Fazenda, mãe de dois de seus filhos, não desmentirá uma só assertiva deste relato.

O louco Fábio Lucena desprezou meu gesto solidário e afoito naquela hora imprevisível. Ao lembra-lo agora, já um esquizofrênico alcoólico irremediável, padecendo o delírio da perseguição, diz que eu comparecera ao quartel apenas para humilhar Aldo Moraes, ao mesmo tempo em que, na sua insana irresponsabilidade, tenta-me envolver no atentado a bomba contra o jornal onde escreve, classificando-me, ainda, de traidor de Álvaro Maia e José Francisco Gama e Silva.

O diretor-proprietário de “A Crítica”, jornalista Humberto Calderaro Filho, que sinceramente espero não venha um dia a ser vítima das calúnias e invectivas desse demente, como estou sendo e já foram  outros que lhe mataram a fome, não desmentirá que fui eu, talvez, o único correligionário do governo de então, sem indagar quanto à autoria do selvagem ato terrorista, a comparecer à redação do jornal para manifestar-lhe minha solidariedade e meu protesto. Mais tarde, já Senador, líder do governo no Senado, sem levar em conta os virulentos ataques do “Estado de São Paulo” ao Presidente João Goulart, por mim rechaçados muitas vezes no mesmo tom, mantinha a mesma coerente repulsa a esse tipo de violência, condenando atentado semelhante contra o grande órgão da capital bandeirante.

Da mesma forma, tenho certeza, os parentes mais próximos e remotos do autor da “Canção da Fé e Esperança”, morando em Manaus entre os primeiros o genro Leopoldo Péres Sobrinho e o sobrinho Heliandro Maia, confirmarão que eu e o inesquecível amazonense reatamos relacionamento fraterno interrompido em 1953, bem como que eu, quando ele disputava a senatoria, tive a grandeza de reconhecer e proclamar a honestidade pessoal. Na Câmara Alta, sentávamos lado a lado, eu muito aprendendo com as lingas conversas e apreciações de questões políticas e socioeconômicas. Quem tentou vilipendiar a memória do grande morto foi o louco ébrio, provocando reação viril de um parente de Álvaro Maia, que o obrigou a desculpar-se.

Aos amigos, simples conhecidos, que insistem no sentido de eu enterrar, com meu desprezo, o louco desmoralizado, repito o que já afirmei: não é para ele o que já escrevi e vou continuar escrevendo. Dirijo-me ao povo, em especial à geração que em 1964 tinha menos de 18 anos, hoje na faixa etária de até 35 anos. Muitos iludidos na sua boa fé e revolta contra a marginalização  que sofreram no processo político, impedindo-os de escolher 5 Governadores ao Amazonas e 5 Presidentes  da República, indignados ainda com o arbítrio que persiste sufocando os brasileiros, procuraram alternativas no vazio em que foram colocados pelas cassações. Meu objetivo é abrir-lhes os olhos, pela comparação do que diz e escreve louco, com aquilo que eu digo e escrevo, a fim de se convencerem de que esse achacador e chantagista precisa ser varrido da vida política do Estado, como medida saneadora inadiável. Não apenas fazendo esse cotejo, de que resultará a evidência de que nenhum homem ou mulher desta terra, à luz da honra própria, subscreverá as infâmias e calúnias vomitadas pelo bêbado nas suas ressacas contra mim, como por exemplo, que sou desonesto e cocainômano, mas inclusive consultando os mais velhos, até os meus adversários governistas, para deles ouvir que, realmente só a mente degenerada de Fábio Lucena chegaria à everestiana vileza de lançar tais acusamentos.

Esses jovens, juntamente com os mais velhos, que lerem o que redigi nesta edição de A NOTÍCIA, sem que ocorram os desmentidos, do que aventei por parte das pessoas citadas, e quando lerem, amanhã o inteiro teor do telegrama que enderecei, em abril de 1964, ao General Amaury Kruel, se convencerão definitivamente, da imperiosidade se der esmagada a víbora que em tantas pessoas já inoculou sua peçonha. Da mesma forma, ao verem publicado telex que recebi de Alésia Gama e Silva, virtuosa viúva do meu inesquecível amigo José Francisco Gama e Silva terão clara a necessidade de impedir que o delinquente Fábio Lucena continue causando estupor na sociedade em que vive – sem respeitá-la – ou provocando preocupações e ansiedade entre os familiares das dezenas vítimas de sua loucura.

Transcrição do Jornal A Notícia de 29 de janeiro de 1980, p. 11.

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