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4 de março de 2015 às 09:30.

Série Especial – Movimento da Discórdia Baré (MDB)

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O PERALVILHO DO ITAMARATI – Fábio Lucena

Até que enfim o funcionário do Ministério das Relações Exteriores (Itamarati), Arthur Virgílio Neto, veio ontem dizer que não tem mais dente de leite. O servidor do Itamarati, que lá ingressou com permissão do SNI, e que, logo depois das eleições de 1978, foi promovido de posto em troca dos bons serviços prestados ao Governo Federal durante a campanha política – para a qual veio fantasiar-se de “oposicionista”, aqui no Amazonas – o funcionário zeloso resolveu deixar de cantarolar a cançãozinha manjada:

“- Paiê!

O que foi que aconteceu?

– Paiê, o Tonico me bateu / Levou meu saco de pipoca, /meu pirulito-picolé / E ainda por cima disso tudo, paiezinho, / deu uma pisada no meu pé!”

A primeira bordunada que lhe apliquei, o janota do Itamarati mandou chamar o pai que estava no Rio de Janeiro em conhecida clínica de geriatria. Antes da vinda do pai (ex-senador da República e dono de cartório dos quais desapareceram, por muito tempo, dinheiro dos pacientes de ações executivas, depositando em favor dos exequentes), o peralvilho do Ministério do Exterior veio à Manaus (de onde saiu em 1959, com 12 anos de idade) chamar de “ditadura assassina” o Governo a quem ele serve em Brasília. Nos comícios, o junker da “ditadura” disse mais misérias a respeito de seus patrões do que toda a propaganda clandestina dos tempos do arrocho mais rude da repressão.

Veio o resultado da eleição: apesar do dinheiro que a AMAZON-LAR, através do pai, derramou na campanha do peralvilho do Itamarati, ele não conseguiu ser eleito: o povo, em seu julgamento sereno e implacável, deixou-o como suplente. Antes de ingressar no Itamarati, Arthur Neto foi protagonista de diversos envolvimentos com a polícia do Rio de Janeiro e de Brasília. No Rio, ele, ainda menino de 13 ou 14 anos, era caften do famoso “Mandy’s Bar”, de propriedade do pai que era então deputado federal. Numerosos são os registros policiais, publicados inclusive pela imprensa carioca, dando conta dos transviamentos do janota, que era sempre acobertados e encobertos pelo imenso prestígio do pai, líder do Governo Federal no Senado, do pai (o todo poderoso senador Arthur Virgílio Filho),

Que com um sopro transferia Generais, afogava Almirantes, fazia voar Brigadeiros; do pai que ajudara a fazer , em 1954, uma passeata de hansenianos contra o Governo Álvaro Maia; passeata para a qual foi amealhada importância considerável em dinheiro que terminou por ser desviado para a campanha eleitoral de Arthur Virgílio e seus sequazes; que importava carros luxuosos por sob a influência de congressista; que, líder do Governo no Senado, até 31 de março de 1964, correu para agarrar-se às botas do General Amaury Kruell, enquanto muitos dos seus liderados eram atirados à prisão e ao exílio.

DENTE DE LEITE

O peralvilho do Itamaraty, chamando de ditadura do Governo a que serve, não supôs que alguém um dia viria a desconfiar da “oposição veemente” que ele aparentava exercer ao regime. Em realidade, ele ia aos comícios apenas para estimular seus colegas de palanque a fazerem o mesmo, a fim de que as gravações fossem conduzidas aos laboratórios de espionagem do sistema de força, que ele conhece muito bem, a fim de alargar o fichário dos seus bons serviços ao Governo, que culminaram em gordas promoções que o Itamarati concedeu, e até em solenidade faustosas a uma delas esteve presente o General Golbery), ao diplomata “Oposicionista” Arthur Virgílio Neto.

Mas as desconfianças vieram: Arthur Neto voltou ao Amazonas (pela terceira vez em 20 anos) e, então, a situação se agravou: como é possível – perguntava-se – um diplomata chamar de ditador o Governo a quem serve e, a seguir, ser mandado em viagens ao exterior representando o mesmo Governo, deste recebendo gordas diárias em dólar?

Foi em face dessas perguntas realmente esquisitas que decidi, por conta própria, chamar as falas o peralvilho. Mas, à minha primeira requisição, não veio ele, mas o pai, o ex-senador que se habituou a cometer as mais sórdidas canalhices no Estado do Amazonas, e na República do Brasil, naquela época em que o canalhismo era galardão de patriotismo na corte dos pelegos e dos cortezões de todo o gênero.

Bordunado  por mim, o peralvilho mandou chamar o pai. Este, pensando que ainda vive os plúbeos tempos da indecência nos quais só não superou a ele próprio, imaginou que, depois de conchavado pelo governismo do qual se tornou subserviente, como preposto da AMAZON-LAR, na qual mamou dinheiro do Governo Federal, supôs que em aqui chegando, e agredindo-me como o fez, eu não lhe daria a competente resposta, que não era bem para ele, confesso-o mas que nele bem se encaixou, e sim para o filho que, covardemente, deixou o velho pai atado ao pelourinho à mercê de chibatadas que lhe são bem merecidas, mas que em realidade, mais se acasalam com o dorso do diplomata do Itamarati, no qual só se ingressa com permissão do SNI!

INVASÃO DO EDIFÍCIO

Os dois meliantes, pai e filho – o filho segurando o pai que nem as doses cavalares de cocaína o mantinham de pé – tentaram invadir às 23 horas do dia 29, edifício em que resido. Objetivavam bater à porta do apartamento e, encolerizados pelas azorragueadas que lhes venho aplicando, e que vão continuar, invadir o meu lar. Devem os degenerados de duas gerações – o pai e o filho – dar graças à Deus ao serviço de segurança que vela pelo prédio, e que não os deixou entrar, pois, a esta altura, estariam os dois no mesmo túmulo. Mas, já que se serviram da calada da noite, porque não vêm de dia? Não vêm por alguns motivos, dentre eles o que segue.

SUPREMA CORAGEM

Arthur Virgílio Filho, ex-senador da República, acostumou-se a invadir residências alheias de arma em punho… mas com a polícia na retaguarda, para garantir sua “suprema coragem”, isto é, sua covardia galopante. Ele passou a vida inteira fazendo isso nos tempos em que foi secretário de Justiça do Amazonas, chefe de polícia, comandante da Polícia Militar, secretário de Fazenda, secretário de Exploração do Lenocínio, secretário das Contravenções Penais, secretário do Despudor Coletivo, secretário da Inconfidência Escandalosa e dos Jogos Proibidos. Só tinha coragem quando a capangagem paga pelo Estado lhe dava cobertura. Só tinha coragem quando ficava covarde para ser corajoso e quando a covardia corajosa virava coragem covarde! O filho puxou o pai. Gritando, à porta do edifício em que resido, o diplomata do Itamarati não sabia mais o que falasse. Lá no alto do apartamento, embora acordado – estava relendo os “Irmãos Kharamazóvi”, de Dostoiévski, que relata a história do pai degenerado e de sua descendência inevitavelmente degenerada – não pude ver o que se passava, lá em baixo, nem pude ouvi-lo. Lembrei-me, no dia seguinte, do poema famoso: “Os anjos ficam, lá em cima, assistindo, lá embaixo, ao desfile das prostitutas”. Evidentemente que os anjos a quem me refiro não me incluem: esses anjos são meus filhos inocentes, que estiveram, na noite do dia 29, sujeitos à sanha assassina de degenerados de duas gerações! Um, o pai ex-senador da República, que se tornou famoso por mandar matar; o outro, o filho diplomata, que é exímio na arte de infiltra-se nas oposições para avantajar sua fé-de-ofício e obter promoções do Governo a que serve.

DUAS EXPLICAÇÕES

O pai, Arthur Filho, tem de explicar o seguinte: quanto recebeu da AMAZON-LAR, isto é, do Governo Federal; quanto em dinheiro o seu cartório de feitos da Fazenda desviou, na década de 50; quanto, em realidade, recebeu no famoso processo de expulsão dos chineses (informações que me chegaram recentemente dão conta de mais de 600 milhões); quanto recebe há quase 30 anos, de comissões dos cartórios que distribuiu para irmãos e cunhados; quanto recebeu do Imposto Sindical, aos tempos em que foi chefe da pelegagem no início dos anos 60. Por hoje, ao pai, apenas essas perguntas.

Ao peralvilho Arthur Virgílio Neto, faço uma só pergunta: Quanto está recebendo para chamar de ditadura o Governo a quem serve, diplomata que é, e quem o está pagando?

Transcrição do Jornal A Crítica de 31 de janeiro de 1980 p. 05.

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