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15 de fevereiro de 2015 às 09:30.

Série Especial – Movimento da Discórdia Baré (MDB)

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ANGÚSTIA DOS DEGENERADOS – Fábio Lucena

Era costume de Herodes mandar matar a todos que lhe conheciam o passado. Na célebre divisão da tetrarquia da Galileia, ele fez enforcar, perante seus exércitos, dois de seus filhos. Ficou célebre o juízo que o imperador dos romanos, Augusto emitiu a propósito: “É preferível ser filho de porco a ser filho de Herodes”.

O temor do passado amarga e amargura a quantos, pelo passado, têm que temer. Sempre que um regime político se desmorona, sempre que cai um governo, a primeira preocupação dos serviçais da antiga ordem é com rasgar os arquivos, os fichários, as fichas. Trata-se do medo da memória. A memória culpada escraviza os culpados. O criminoso, por exemplo, sempre volta ao local do crime. E não o faz sem motivo: ele sente a mórbida necessidade de reviver o que fez e só se realiza no caminho de volta, no qual, conforme comentou, o grande José Américo, ninguém se perde.

O passado pesado pesa nas consciências pesadas. Esse peso martiriza ao extremo do desespero. Assim, enquanto não revelado, o passado temeroso de si próprio não hesita em querer fazer temer aos demais. Por vezes, não suportando o fardo do próprio peso, o passado traumatiza tanto seu paciente que o leva ao arrependimento. Quando um grande criminoso confessa espontaneamente um grande crime, aquela espontaneidade não é senão uma força irreprimível à qual o arrependido se verga, sem alternativa. Mas o medo do passado enfermo também provoca o temor do amanhã. Geralmente aqueles que dizem “minha vida é um libro aberto” – são os primeiros a se fecharem para não serem lidos. Porque pobre do livro que for mantido sempre aberto: cedo se toldará da poeira mais suja!

Todas as considerações acima vêm a propósito de dois fatos. O primeiro é o seguinte: durante quatro anos, o grupo “Raymond/Fazendas Unidas” fez publicar em jornais e revistas (inclusive  no “Times” de Londres) farta matéria publicada a respeito da produção de álcool no Amazonas. Numa dessas publicações (revista “Manchete”, edição de junho de 1977), lê-se uma informação surpreendente: o grupo, aquela data, produzia 40% do guaraná brasileiro; no fim daquele ano começaria a produzir álcool e tornaria o Amazonas autossuficiente na produção de farinha de mandioca!

Modesto conhecedor da economia do nosso Estado, bem como da sua história, esforcei-me por mais bem conhecê-las. E descobri que tudo era mentira: em verdade, tudo não passava de um plano para arrancar financiamentos vultuosos, cujo montante, delineadamente, depois denunciei: Cr$ 600 milhões. Anuncia-se agora, que o grupo foi vendido. E diz-se que os compradores (empresa do Sul) têm condições de implantar o projeto do álcool.

Lembram-se bem os milhares de leitores deste jornal de o que fez esse grupo para tentar silenciar-me: alugou duas televisões por meio das quais, durante uma semana, fui rudemente atacado por um mercenário farisaico. (A abordagem do assunto prossegue amanhã).

O segundo fato é o seguinte: no início dos anos 60, quando o grande Presidente Juscelino Kubitschek transferiu a seu sucessor um país  de regime plenamente democrático, já se sabia, havia muito, que a democracia estava na mira dos democraticidas. Estes eram formados de vários matizes. Um destes consistia nos “democratas de Copacabana”: alguns deputados e senadores que se reuniram no “Mandy’s Bar” da Avenida Atlântica, e lá traçavam o destino do Brasil. Detentores de mandatos cuja renovação estava assegurada, não pelo valor pessoal do mandatário, mas pelo aconchavamento compadresco instilado nos governos estaduais, os “democratas de Copacabana” embriagavam-se com o poder fácil de que dispunham, sobretudo o de corromper, e se esqueciam de que uma geração inteira estava se formando por sob a irresponsabilidade deles, dos “democratas pelegos”. Com o ato de força de 1964, que interditou por 15 anos o regime constitucional, os democratas do “Mandy’s Bar” começaram a se agarrar às japonas de alguns generais vitoriosos para não serem punidos, enquanto outros brasileiros eram presos ou exilados.

O “Mandy’s Bar” era o bar mais luxuoso de Copacabana. Ficava a beira do mar, na Avenida Atlântica. Frequentavam-no os homens mais ricos do Rio de Janeiro e do resto do Brasil, bem como do mundo. Porfírio Rubirosa, quando esteve no Rio na companhia de sua quarta esposa que se chamava Flor de Liz Trujilo (filha do então ditador da República Dominicana) anoitecia e adormecia no faraônico bar de Copacabana. Rubirosa, não é preciso dizer, foi o playboy mais requintado do “jet-set” internacional.

Foi o deputado federal mais eleito pelo Amazonas, Arthur Virgílio Filho, quem o comprou, em 1959, o “Mandy’s Bar”. Ou melhor: ele comprou o ponto comercial e mandou construir o recanto baltazaresco. Ele tinha tido três mandatos de deputado estadual neste Estado e, mal desembarcava no Rio de Janeiro, que na época era o Distrito Federal e sede do Congresso Nacional, logo implantava o bar mais luxuoso do bairro mais rico do continente. Como? Ora, ora, como? Que pergunta mais idiota!

ORGIA CARTORÁRIA

Na época, faz mais de vinte anos, Arthur Virgílio já era doutor em orgias. Na fase áurea da corrupção no Amazonas, ele agarrou a quase totalidade dos cartórios aqui existentes e os entregou a irmãos, cunhados, etc. Além do cartório dos Feitos da Fazenda, que Arthur reservou para ele próprio e do qual desaparecia o dinheiro que os executados em processos de ação executiva depositavam em favor dos exequentes.

No famoso “Sermão da Visitação de Nossa Senhora”, diz o Padre Antônio Vieira: “Não é miserável a república onde há delitos, senão onde falta o castigo deles”. Virgílio já cometera, no Amazonas, incontáveis e inomináveis delitos, desde os diversos crimes contra a honra às tentativas de homicídio; do estelionato ao tráfico de influencia. Nunca foi castigado. Não tendo havido castigo para tais e monstruosos delitos, tornou-se miserável a república que teve, no Senado, como líder do Governo, precisamente o dono do “Mandy’s Bar”.

Sagrando-se a ele próprio vitaliciamente impune, acostumou-se a xingar a Deus e ao mundo. Em certa época, comprou um jornal que tinha sede na Rua Saldanha Marinho, quase na esquina com Eduardo Ribeiro. O desgraçado pasquim não poupava a honra da mulher mais honrada e não respeitava a probidade do homem mais probo. Depois de ter passado quase um século xingando impunemente, revolveu xingar a mim e a minha geração. Supunha, o xingador degenerado, que eu viesse calar diante da degenerescência que pela voz dele estertora e cujas mandíbulas há muito estavam precisando de contundentes bordunadas de verdade antes do estertor derradeiro.

DINHEIRO DA DITADURA

Pretende o comborceiro degenerado que ele tenha sido vítima da “ditadura”. Foi nada: vítimas foram outros brasileiros que não se acarrapataram à japona dos Generais.

Arthur Virgílio, por exemplo, foi nomeado advogado da AMAZON-LAR associação de poupança e empréstimo garantida pelo Banco Nacional de Habitação, isto é, pelo Governo Federal, isto é, pela “ditadura” que “vitimou” o “coitado” no exato momento em que a AMAZON-LAR tinha como presidente de seu conselho diretor o presidente da ARENA amazonense. Comeu, pois dinheiro da “ditadura”. Assim, além de comensal da “ditadura”, foi serviçal do partido governista, de quem recebeu, através da AMAZON-LAR, polpuda remuneração e outras vantagens!

Depois disso tudo, quer comandar a Oposição. Vai comandá-la, mas não aqui!

O passado pesa nas consciências pesadas. Esse peso martiriza ao extremo do desespero. Assim, enquanto não revelado, o passado temeroso de si próprio não hesita em querer fazer temer aos demais.

Os degenerados, pela voz do múmia pelego, estão angustiados: querem de volta o poder. Vou devassar-lhes o passado. É meu dever. Até amanhã!

Transcrição do Jornal A Crítica de 29 de janeiro de 1980.

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