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2 de fevereiro de 2015 às 13:00.

Série Histórica das Eleições de 1976

AS SERPENTES MUDAM DE PELE

Antes, a campanha de calúnia aberta, a ofensa à minha família, os ataques pessoais, etc. Agora o tom meloso, de suposto “vitimismo”. No entanto, se mudou a tática, não mudou o objetivo: tentar destruir-me diante da opinião pública, fazendo rodízio de caluniadores, pretendendo que me rebaixasse a discutir com tipos suficientemente conhecidos pela sociedade amazonense. A esses não dei, nem darei confiança. A definição de seu caráter está na própria alcunha recebida.

Não deixarei, porém, nada sem os devidos esclarecimentos, desde que haja pontos concretos a esclarecer e é o que penso a fazer.

O antigo Diretor de Circulação do Jornal da Amazônia, Nestor Nascimento, que diz só ter assumido a função muito depois, mas que todos são testemunhas do contrário e constava, desde logo, o seu nome é função no expediente do JÁ, pôs imediatamente a carapuça na cabeça quando contei o trambique sofrido. Não lhe citei o nome. Houve outro Diretor de Circulação depois dele, mas Nestor foi traído pela consciência culpada.

Não fica só nisso. São suas palavras: “O Dr. Mário Antônio (não sou doutor, sou bacharel em Direito) veio à minha procura para dizer que o dinheiro que eu estava devendo eu pagaria quando pudesse, mas que continuasse colaborando com o jornal, pois meus artigos eram uma força”.

Ficou, pois, cristalinamente patenteado que ele devia ao jornal. Se devia e eu lhe disse que pagasse quando pudesse, era porque se apropriou indevidamente do dinheiro, pois ninguém lhe deu autorização para tal, caso em que haveria prazo estipulado de devolução e Nestor teria escrito sobre dilatamento de prazo. Mas foi trambique no duro!

Ele diz que ficou só em mil e duzentos cruzeiros. Não é possível assegurar, pois jamais prestou contas. Mas por nossas estimativas, deve ter oscilado entre doze e vinte e cinco mil cruzeiros.

Mesmo aceitando que tivesse sido só mil e duzentos cruzeiros, não invalida a caracterização do trambique.

Na verdade, o Diretor de Circulação, por causa do trambique, sumiu da nossa improvisada redação, que ele pês entre aspas. Tratava-se da casa do Sr. Aldísio Filgueiras.

Encontrei-me com ele uma noite e convidei-o para conversar. O Sr. Nestor Nascimento teve uma crise de choro pela vergonha. Com pena, pois ainda nos unia a amizade, apesar dos pesares, disse-lhe que o dinheiro era o que menos contava, que nós saberíamos desculpá-lo se ele estava em dificuldades, que nos contasse tudo. (Depois descobrimos tratar-se de puro esbanjamento em bares). Disse-lhe realmente que seus artigos eram uma força para o Jornal da Amazônia por duas razões: 1) de fato eram bons trabalhos; 2) para levantar-lhe o moral.

Então o Sr. Nestor, ainda chorando, abraçou-se comigo, chamou-me de irmão, porque “só um irmão agiria dessa forma”, e disse que continuaria a colaborar, entregando os trabalhos a mim ou à Sandra, mas que só voltaria à redação depois que pagasse a quantia de que se apropriara, pois alegou não poder encarar os demais companheiros. Falei que por mim não havia impedimento. Mas ele insistiu e concordei.

Depois daí nunca mais nos vimos. Soube apenas que me caluniara para José Gaspar. Fui interpela-lo em seu curso e ele disse que não era verdade. Como mais de uma pessoa contou-me a mesma história e sei que Gaspar é sério, cortei relações de amizade.

É claro que depois do acontecido ele não poderia mais prosseguir como Diretor de Circulação. Assumiu Márcio Souza, a quem ele jamais prestou conta.

FINANCIAMENTO

O jornal começou com a ajuda de um empresário amigo, que não exigiu nada, exceto um bom semanário. Inicialmente foi prometido financiamento de Cr$50 mil, mas no final, pelas condições de nosso Mecenas, ficou apenas em Cr$ 53 mil.

Diz o Sr. Nestor que sabendo a redação dessa ajuda “ficou mais confusa ainda sem entender as dificuldades financeiras que o Dr. Mário Antônio dizia existir”.

Em primeiro lugar, o financiamento inicial não foi dado de uma só vez. Nenhuma gráfica em Manaus se prontificou a rodar o Jornal da Amazônia. Tive de ir ao Rio de Janeiro para conseguir a impressão do JA de lá. A passagem, por que não dispunha de dinheiro, foi retirada do financiamento inicial.

Em segundo lugar, o custo semanal do jornal (gráfica, pagamento do representante no Rio de Janeiro, transporte até o aeroporto no (Rio), transporte aéreo, malotes, etc., ficava acima de Cr$ 5mil semanais e às vezes, dependendo das circunstancias, em mais de Cr$ 6 mil (o que será explicado mais adiante). Portanto, o financiamento inicial não chegou a cobrir os primeiros seis números (desconte-se a passagem aérea). O Jornal da Amazônia rodou vinte e três números!

Em terceiro lugar, porque se tratava de um cliente distante, no Amazonas, a gráfica exigiu que pagássemos adiantado!

Em quarto lugar, o dinheiro da publicidade oficial ou particular demorava a ser paga, pela tramitação normal. Lembro que a empresa que pagou em menos tempo (cerca de dez dias) foi a Sharp.

Em quinto lugar, houve números em que saía publicidade oficial numa página e crítica ao Governo na outra. Editais da Suframa e análise isenta dos problemas da Zona Franca de Manaus. Críticas à Prefeitura e tantas coisas mais.

Em sexto lugar, a gráfica no Rio tentou várias vezes aumentar em termos proibitivos o preço do serviço. Houve troca de representantes. Tudo isso me obrigava a viajar, porque eu tinha fechado contrato com a gráfica. E cada viagem era quase a tiragem de um jornal.

Em sétimo lugar, o jornal, apesar de ter-se originado comigo, era decidido por toda a redação. E é claro que muitas vezes a discussão corria solta e ardente. Se eu era voto vencido respeitava sempre.

Em oitavo lugar, quando o Sr. Nestor me substituiu por dois dias no escritório em que trabalhava, paguei-lhe o equivalente a duas vezes mais do que representava meu dia de trabalho. Não lhe pedi. Ele que se ofereceu e aceitei. Até então não sabia o que se escondia por baixo de sua aparência.

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AMAZONAS DISTRIBUIDORA

Apenas um terço da tiragem era distribuído pela Amazonas Distribuidora.

De fato, o jornal, por seu caráter experimental e especial, tinha dificuldades de aceitação em certas áreas. Se nas bancas da Eduardo Ribeiro vendia bem, nas próximas aos terminais de ônibus, por exemplo, vendia mal. Depois o relativo alto preço do exemplar: Cr$ 3,50. Daí se tirava parte da comissão do Sr. Nestor e dos meninos jornaleiros (não as bancas), pois o Diretor de Circulação era o único que ganhava no semanário, um mutirão onde todos trabalhavam de graça aos domingos, pelo prazer da experiência. Pessoalmente ainda me endividei por causa do JA.

Se o Sr. Nestor fazia questão de vender pessoalmente os jornais, era pra ficar com a comissão dos jornaleiros, que controlava. Mas até aí nada demais.

As bancas próximas aos lugares de movimento de pessoas com falta de poder aquisitivo (Cr$ 3,50 era elevado) reclamaram estar vendendo pouco ou simplesmente não vendendo nada. O Sr. Philippe Daou e o Sr. Joaquim Margarido baixaram uma ordem de da Amazonas Distribuidora dizendo que o jornal seria vendido nas bancas escolhidas e combinadas diretamente pela direção do semanário e assim foi feito.

O Sr. Nestor não andava a pé com os pacotes. Eu o levava em meu carro ou, quando não podia, dava-lhe dinheiro para o táxi. Agora, se ele ficava com o dinheiro e dia de ônibus ou a pé, isso já é outro problema.

“FALÊNCIA”

Durante todo o tempo de funcionamento do JA o Sr. Nestor Nascimento manteve o seu Curso Dinâmico. Não fechou na época e não fechou agora. Mente, portanto, quando diz que “faliu”.

Ressalte-se, porém, a denúncia feita pelo Professor Sílvio Ranciaro, ontem, nas páginas de A CRÍTICA, de que o curso é irregular e vende diplomas frios.

Se o Sr. Nestor não é trambiqueiro, porque então não assinou ele mesmo o contrato de aluguel da casa onde hoje funciona o Curso Dinâmico, em vez de passar a responsabilidade para o Professor Sílvio, que diz que o Sr. Nestor não tem crédito na praça?

GASPAR

Entre mim e José Gaspar nunca houve estremecimento. E na época em que ele diz estarmos “meio rompidos”, Gaspar jantou em minha casa para escutar um disco de músicas portuguesas que eu havia recebido.

Gaspar não chegou a colaborar com o jornal por falta de tempo. Ele é testemunha.

SUSPENSÃO

O JA, pela sua estrutura de impressão, chegou à inviabilidade. Continua-lo seria acumular dívidas, pois crescera demais em importância e responsabilidade e passaria a exigir profissionalização dos seus colaboradores. A renda, que mal dava para os compromissos, passou, depois do trambique, a insuficiente, porque cortou bruscamente, num momento difícil de publicidade, a circulação de nosso capital de giro.

Além do mais, fechando com antecedência de uma semana, corria os riscos de ser ultrapassado pelos fatos. Muitas vezes mudamos não só manchetes como ditamos matérias inteiras por telefone (eis porque às vezes chegava a edição a quase Cr$ 6 mil por semana) depois das discussões intensas, que o Sr. Nestor chama de desavenças. Mudava-se ou não, de acordo com a maioria.

Decidir fechar o Jornal da Amazônia em definitivo seria muito doloroso sentimentalmente para todos nós. Concordamos então que o jornal ficaria suspenso, até conseguirmos revivê-lo, se possível como jornal diário.

Ficou também decidido que a estrutura do jornal passaria de firma individual, o primeiro recurso, para a sociedade por quotas de responsabilidade limitada, distribuídas por todos os integrantes.

Nessa altura estava fora o Sr. Nestor por causa do trambique.

MÁRCIO SOUZA

A estrutura de funcionamento do novo jornal foi elaborada por Márcio Souza. Viajei a Rio a São Paulo para ver máquinas e as condições de viabilidade. A passagem foi dada pelo Deputado Mário Frota.

Não desapareci de Márcio e nem houve negociações de que ele participasse ou deixasse de participar, simplesmente porque não houve negociações de ninguém. Ao voltar, ficou o assunto em suspenso porque uma editora do Rio se interessara pelo projeto. Não teríamos condições de comprar novas. As usadas, para as nossas condições, já seriam verdadeiras temeridade empresarial, quanto mais as novas. O convite de sociedade ao Deputado José Dutra foi comunicado a todos. O parlamentar pediu que aguardássemos um pouco para estudar suas condições, depois disse que não dispunha de numerário, embora devêssemos fazer todo esforço para levar o jornal à frente, na sua opinião.

JORNAL DIÁRIO

A mentira de que existia dinheiro para um jornal diário se desfez por si própria: SE TIVESSE CONDIÇÕES DE TER UM JORNAL DIÁRIO NÃO ESTARIA EU ESCREVENDO EM MEU PRÓPRIO JORNAL?

Não é preciso comentar mais nada.

ORIGEM

O Professor Ranciaro denunciou, como já estava óbvio, que estou sendo vítima de uma campanha de calúnias. Não comecei nada disso. Quando me defendi, já fora caluniado.

Um pormenor: estão fazendo cavalo de batalha de certos aspectos levantados na minha defesa na origem da campanha. Por compromisso ético, como Assessor da Bancada do MDB na Assembleia Legislativa, não posso quebrar sigilo profissional. NÃO QUE A BANCADA TENHA ALGO A VER COM NEGÓCIOS ESPÚRIOS, EM ABSOLUTO, E DESAUTORIZO QUE SE USE QUALQUER DE MINHAS PALAVRAS CONTRA ELA. Mas é imposição ética.

Enfatize-se: não fui eu quem começou a briga. Ela foi preparada e planejada.

Os deputados oposicionistas conhecem todas as facetas da controvérsia e têm agido com coerência e honestidade no decorrer da crise.

“GUARDA A PALACIANA”

Não sou nem nunca fui funcionário do Palácio Rio Negro. Não sou autoridade nem tenho guardas. Ando só ou com meus bons amigos. A AUTORIZADE QUE TENHO É A DE UMA VIDA INTEIRAMENTE LIMPA!”.

É justamente a falta de compromisso e a coerência de minhas convicções que incomodam tanta gente, a ponto de o Sr. Nestor Nascimento, segundo o professor Sílvio Ranciaro, ter-se reunido com um grupo e combinado: “Precisamos preparar alguma para o Mário Antônio, pois ele é muito perigoso para nós”.

Se quiserem continuar com a campanha de calúnias, continuarei me defendendo e desmascarando os caluniadores contratados para o “rodízio”.

Até hoje tenho tido orgulho de pertencer ao Movimento Democrático Brasileiro, que uma ala, felizmente diminuta mas irresponsável, está querendo esfacelar e desmoralizar diante do povo amazonense, por picuinhas e despeito pessoal.

Não sei se vão parar. Para mim já se tornou indiferente, apesar de que a tudo darei a devida resposta. Continuarei firme e sereno, pois entre calúnias e insultos, aprendi a caminhar sereno.

Gostaria, para finalizar, de lembrar Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra”, quando se refere aos sepulcros caiados: “Conheço demasiado “esses seres semelhantes” a Deus; querem que se acredite neles e que a dúvida seja pecado. Também sei de sobejo no que é que eles creem”.

Mudaram de tática, como as serpentes mudam de pele, o que não lhes esconde a natureza peçonhenta. O que me incomoda é a minha inquietude por um mundo melhor.

E aí recorro novamente a Nietzsche, sem ser pretencioso, pois sei que as coisas dependem da História, que não depende da ação isolada de indivíduos. O meu orgulho pessoal é saber que “é necessário possuir um caos dentro de si para dar a luz a uma estrela brilhante”.

Esta estrela se chama Democracia!

Mário Antônio

Transcrição do Jornal A Crítica de 11 de outubro de 1976, p. 07.

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