or décadas, o eleitor brasileiro foi condicionado a aceitar uma regra matemática aparentemente simples: se a diferença entre dois candidatos é menor do que o dobro da margem de erro, eles estão em “empate técnico”. No entanto, o documento intitulado “O Empate Técnico: Não é Empate e Não é Técnico”, de autoria de Luiz Carlos da Rocha, presidente do Conselho Federal de Estatística (CONFE), faz um alerta contundente de que essa métrica amplamente utilizada pela mídia carece de fundamento científico e pode estar enganando o público.
O ponto central da crítica reside na ideia de que o termo é um constructo puramente jornalístico, criado para designar incerteza de forma simplificada, mas que ignora os protocolos rigorosos da ciência estatística. O autor explica que a famosa “margem de erro da pesquisa” é um valor genérico calculado a priori, quando, na verdade, cada candidato possui uma margem de erro singular, calculada a posteriori de acordo com o seu próprio desempenho percentual. Isso significa que a precisão para um candidato que tem 40% das intenções de voto não é a mesma para aquele que possui apenas 5%.
A falha na regra atual fica evidente quando se analisa a sobreposição dos intervalos de confiança. Segundo Rocha, a aplicação cega da regra do dobro da margem de erro pode forçar um cenário de igualdade entre dois candidatos cujos intervalos sequer se cruzam, tornando a possibilidade de um empate real praticamente inexistente do ponto de vista probabilístico. Além disso, a divulgação comum das pesquisas incorre em três falácias fundamentais: acreditar que todos os dados variam sob a mesma margem fixa, aceitar que a margem é única para todos os concorrentes e ignorar que as intenções de voto são correlacionadas — afinal, o universo eleitoral é um sistema fechado de 100% onde o crescimento de um nome implica, obrigatoriamente, na queda de outro ou na redução de indecisos. Essa falta de rigor gera paradoxos lógicos e dilemas de ordenação, nos quais analistas precisam tomar decisões arbitrárias sobre quem está na frente quando múltiplos candidatos se cruzam na zona de incerteza.
Como solução para elevar o nível de precisão do debate público, o presidente do CONFE propõe a substituição do conceito pelo chamado “Empate Estatístico”. Essa nova abordagem seria fundamentada no Teste de Igualdade de Médias (TIM), um critério técnico rigoroso utilizado em áreas como a medicina e a engenharia. Uma alternativa intermediária para facilitar a transição seria basear o anúncio de empate na soma das margens de erro singulares de cada candidato envolvido, em vez de simplesmente dobrar a margem geral da pesquisa. O documento conclui que o uso indiscriminado do termo “técnico” confere uma aura de cientificidade a uma análise que, muitas vezes, é apenas superficial. Enquanto a metodologia não for ajustada para refletir a realidade estatística individual de cada concorrente, o “empate técnico” continuará funcionando mais como um alerta de ordem indefinida do que como um dado científico preciso, deixando o eleitorado refém de uma interpretação frágil da realidade política.