3 de fevereiro de 2015 às 09:30.

Série Especial – Movimento da Discórdia Baré (MDB)

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O ENERGÚMINO

Ao cair de uma noite, de um dia… de um mês do ano de 1974 eu me dirigi ao Bairro de Nossa Senhora de Aparecida. Haviam me comunicado, ou eu havia escutado no rádio, não sei bem, que dois políticos amazonenses oposicionistas, haviam sido pronunciados pela Auditoria Militar com sede em Belém, como incursos nos drásticos dispositivos da Lei de Segurança Nacional.

Era um resultado de processos engendrados pelo governo de então, como os demais depois de abril de 1964, imposto ao povo do Amazonas sem que esse povo fosse consultado. Processos maquiavélicos, de rasteirice política inominável. A draconiana Lei de Segurança Nacional, ainda em vigor para a vergonha e revolta de quem cultua o Direito e a Liberdade, afrontando o universalmente acatado princípio segundo o qual todo réu é inocente até que seja sentenciado, vedava, e veda, aos cidadãos apanhados nas suas malhas de antilei, o direito de disputar postos eletivos.

Meu objetivo, naquele cair de noite, era levar a minha solidariedade a dois conterrâneos vitimados pela legislação arbitrária. Um, Francisco Guedes de Queiroz, tivera barrada a conquista do seu quinto mandato de deputado estadual, outro, Fábio Lucena, fora impedido de ascender à Câmara Federal. O primeiro meu companheiro de muitas lutas, eu sabia onde morava; do segundo, desconhecia a localização de sua residência.

Indagando numa e noutra casa, nas ruas internas e mal traçadas do tradicional bairro, cheguei à morada de Fábio Lucena. Lá o encontrei rodeado apenas por sua digna e devotada esposa e por seus inúmeros filhos. Abracei-o, externei lhe meu inconformismo ante o ato brutal que, de forma deliberada, erguia barreira intransponível na sua trajetória de homem público. Estimulei-o: “vá em frente, fronte erguida, revigorado para novos embates, pois quando uma ditadura usa de expedientes tão baixos é porque o seu (dela) fim não está muito longe”.

Fábio Lucena agradeceu-me, comovido. Era o primeiro, e talvez fosse o único, a lhe levar o conforto amigo naquela hora de adversidade. Era, sobretudo, um banido da vida pública pelo arbítrio, afrontando o famigerado “estatuto dos cassados”, que lá estava indiferente à proibição dos DOPS e SNI de manifestar-se politicamente.

Da casa de Fábio Lucena fui à Francisco Queiroz. A mesma cena familiar, a esposa solidária e justamente revoltada, os filhos revelando nos olhares espantados não estavam entendendo o que acontecia. Alguns amigos do bravo parlamentar, que me acolheram efusivamente.

Queiroz preparava-se para fazer um pronunciamento pela televisão. Cartazes pintados pelas mãos hábeis de Maria Luiza, sua mulher, rodeavam-no. Eram frases selecionadas de pensadores naturais e estrangeiros, condenando a hediondez das ditaduras, a vileza de todos os regimes sustentados pela força assassina das armas e o consequente espezinhamento das liberdades. Um deles proclamava: “A liberdade não se conquista de joelhos, mas de armas na mão”. Afastei esse cartaz, argumentando: eles (referia-me ao governo estadual e à repressão em geral) te envolverão em outro processo, acusando-te de incitamento de rebelião. Usa Confúcio, que embora chinês, não pode ser acusado de comunista nem conspirador…

Francisco Queiroz continua meu fraternal amigo, Fábio Lucena, o outro, porém, incapacitado mentalmente de discernir o bem do mal, esqueceu tudo, esse e outros episódios, os elogios a mim e a meu filho, Arthur Virgílio Neto. Sem quem tivéssemos provocado, sem que lhe tivéssemos dado o menos pretexto. Apenas porque discordamos do seu mandonismo doentio, da sua pose de líder de tudo e de todos, da sua megalomania irresponsável. Eu que duvidava do que me diziam a seu respeito, do que me informavam acerca do seu equilíbrio, que tinha sincera benevolência para com seus atos, defronto, agora, a realidade crua. O catão de sebo desafivelou a máscara e não foi preciso que ninguém gritasse que ele está moralmente nu diante de mim.

A investida do energúmeno contra meu filho, que jamais contra ele proferira uma só palavra desabonadora, que com ele dialogava em termos respeitosos e sinceros, revela o seu deplorável estado de espírito. Assacadilhas contra um correligionário decente que estava iludido quanto a hipótese de poder compor um partido de oposição com seu (dele, Fábio) concurso. Insano, como é com as células cerebrais deterioradas pelos efeitos do vício que o conduzirá, em breve, à loucura irremediável, usa os termos patife, moleque, frascário, como se tivesse fazendo a autobiografia desses longos anos em que degradou a representação popular. Atinge o ponto, inclusive, na sua empáfia de fronteiriço da demência, de proferir ameaças, de falar em pistolas nivelando os homens em força.

Exerci mandatos eletivos durante 23 anos. No âmbito do Estado ou do País, jamais transigi com a desonestidade. Não fui diferente como jornalista e diretor de jornal. Nunca, no entanto, fui processado por crime de calúnia ou difamação, isto porque pensei e sobrepesei, sempre, meus pronunciamentos, embasando-os com provas irrefragáveis ou depoimentos idôneos.

Teria autoridade, pois, para aconselhar Arthur Virgílio Neto à processá-lo, com base no que ele dejetou pela boca, no que vomitou contra um jovem na sua inconsciência do que diz e faz, mas que nem isso o impede de ser vereador. A entrevista concedida por ele ao Jornal A CRÍTICA, prenhe de calúnia, injúrias, mentiras e difamações, forneceria matéria ampla para um procedimento criminal contra o detrator. Seria, porém, mais um processo, que Fábio Lucena receberia satisfeito na sua irresponsabilidade, procurando posar de vítima para amealhar votos e apoios, mas que concorreria para outra condenação inevitável.

Sou um homem duro nesta luta, mas, sobretudo, sou humano. Sem admitir que Fábio Lucena continue tentando denegrir a honra do meu filho e de outros, não quero vê-lo na cadeia. Não é disso que ele carece. Seu problema é, na melhor das hipóteses, receber a assistência de um psicólogo. Caso não dê resultado, que seja convocado o psiquiatra. E, ao longo dos anos que nos separam das eleições de 1982, ou dos meses que nos distanciam de 15 de novembro, deste ano, se houver eleição municipal, vou, dia a dia, hora a hora, tentar convencer as pessoas que ainda se deixam enganar por Fábio Lucena de que ele já não mais se controla como um indivíduo normal para interpretar e defender os anseios do povo. O que ele precisa, urgentemente, é de tratamento longo e intensivo em benefício próprio e daqueles que nele dependem.

Mesmo considerando assim e pensando assim, dou à sua ameaça de agressão contra Arthur Virgílio Neto a mesma importância que atribuiria à atitude de uma criança empunhando um revólver de brinquedo. É que o desvio psíquico não transformou Fábio Lucena em Homem

Estou autorizado a falar, no debate de questões políticas vinculadas ao Amazonas, em nome do meu companheiro e amigo José Bernardo Cabral, da mesma forma como lhe outorguei carta branca para emitir, como minha, sua própria opinião.

Tal ligação, advinda de nossa leal amizade e recíproca confiança, consequência também da identidade nos nossos pontos de vista, é claro, entre dois cidadãos que não sofrem qualquer impedimento no seu direito de fazer política, tomar posições ou estabelecer alianças. José Bernardo Cabral, por exemplo, é Secretário Geral do Conselho Federal da Ordem dos Advogados e do Brasil, entidade que, estatutariamente não apresenta limitações ideológicas à livre manifestação do pensamento, e cujo prestígio o atual titular jamais utilizaria para outros fins que não os que lhe são inerentes.

No exercício desse alto posto da confraria profissional, José Bernardo Cabral – e não há quem, de boa fé, levante dúvidas – embora desincumbindo-se do mandato que recebeu e que vem dignificando com dinamismo e inexcedível bravura cívica, é, indiscutivelmente, apenas o advogado que pode e deve influir claramente em parâmetros nitidamente definidos e definitivos, sobre o quadro político em esboço no Estado e no Brasil.

Posso assegurar, pois, aos milhares de amigos e admiradores da cultura e honradez de José Bernardo Cabral, ser autêntica, em todos os seus termos, a entrevista por ele concedida no jornal A NOTÍCIA, edição do dia 23 do mês em movimento, acrescentando que o meu prezado amigo em referência leu esta nota ainda rascunhada.

Arthur Virgílio Filho

Transcrição do Jornal A Notícia de 26 de janeiro de 1980, p. 03.

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