5 de março de 2015 às 09:30.

Série Especial Movimento da Discórdia Baré (MDB)

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A OPÇÃO DE DOM QUIXOTE – Arthur Virgílio Neto

Temos, meu pai e eu, recebido inúmeras demonstrações de solidariedade, por telefone e pessoalmente, de parte de pessoas que nos respeitam e nos estimam, repudiando os ataques infames, e ao mesmo tempo infantis do indivíduo Fábio Lucena, ainda vereador de Manaus. Ontem, por exemplo, um professor universitário pediu-me, com muita ênfase, que não desse trela às fanfarronices do Dom Quixote da planície amazônica. E, de fato, não me passa pela cabeça dar confiança a um político decadente e desgastado cujo fim se aproxima a olhos vistos.

Devo, no entanto, satisfação ao povo amazonense e, neste espírito, disponho-me a desmoralizar os argumentos – o autor não poderia estar mais desmoralizado, convenhamos – utilizados em péssimo estilo gramatical, pelo tolo e repetitivo “herói” municipal. Evitei tal atitude antes, em face da presença, em nossa terra, do bravo deputado Fernando Coelho, que aliás, bem deve ter feito um juízo a cerca de quem é quem na política estadual.

Sou homem objetivo, fique claro esse ponto. Não comporei, portanto crônica chorosa, falando na minha mãezinha, porque não tenho vocação para Fábio Lucena nem para Waldick Soriano. Vamos aos fatos:

1 – Acusou-me Lucena, excluídos os adjetivos cujo significado a sua nobreza intelectual não consegue captar, basicamente de duas coisas: ser lacaio da ditadura (por ser diplomata, em ofensa à instituição secular do Ministério das Relações Exteriores, cuja técnica diplomática é respeitada em todo o mundo) e prestar serviços ao SNI. Vejamos então:

1.1 – O Amazonas e o próprio detrator sabem que sou diplomata de carreira, concursado e, portanto, exerço meu cargo acima de governos e até de regimes. Se as minhas posições políticas desagradarem à ditadura fascializante que propiciou certo espaço para os Lucenas da vida que me comita pois! Não deixarei a minha carreira à toa, porque não tenho tempo para jogar dominó, nem para mentir em mesa de bar. Além disso, não moro em apartamento de nenhum dono de empresa; o Lucena que não paga aluguel, pensa que as coisas se resolvem da noite para o dia.

1.2 – Prestar serviços ao SNI? Jamais o melodramático e choroso edil dissera antes algo tão ridículo. Prestar serviço ao Ministro Golbery? Ora vamos, meu desequilibrado conterrâneo Lucena, o Golbery para mim, é igual a você; quero ver ambos aposentados da política, quero ver o SNI destruído, como, (***) haverei de ver a sua trajetória de infâmia e calúnia. Além do mais, de nós dois, foi você quem prestou serviços ao SNI, denunciando torpemente o ex-governador Henoch Reis, lembra? Tenho por sinal um rosário de ossos onde você atuou como ativo dedo-duro. Vou só enumerar, para desdobrar depois, se preciso for; acusou Josué Claudio de Souza, pai, de haver sido eleito prefeito de Manaus com o auxílio de votos comunistas; entregou colegas seus do Banco do Brasil, para conseguir o emprego; dedurou o jornalista Mário Antônio, em história tão deprimente, que apenas a relatarei de você pedir; dedurou o diretor de A CRÍTICA, no pleno Tribunal de Justiça, em processo que contra ele, Fábio, moveu o senhor Andrade Netto; entregou o vereador Rui Adriano Jorge (ex-MDB) para o general Jorge Teixeira naquele caso da SESAU. Você se recorda, Fábio? E ainda recentemente os funcionários da SESAU sentiram o dedurismo desvairado do nosso anão de jardim – como despreza o Lucena, que se delatou, para fazer média com o subsecretário de plantão, etc.

2 – Quanto à acusação de o haver intrigado com Félix Valois e José Dutra nos comentários, me disponho a fazer. O primário cidadão sabe que tenho (***) de Valois e Dutra, para manter acusações junto à Executiva Nacional Provisória do PMDB com vistas à formação de seccional desse partido no Amazonas. São ambos políticos do mais alto nível, cuja palavra, para mim, é digna de toda a confiança; creio, portanto, que permaneceremos juntos ao longo de toda a caminhada que visa a devolver as prerrogativas da Nação. Com quem ainda conta mesmo Fábio, na política do Amazonas? Política é também saber somar, não se a faz pela diminuição sistemática de companheiros e adversários.

3 – Há dias, porém, que o maníaco investe contra meu pai (se houver calos nas mãos preguiçosas do Quixote, eles se devem, certamente, à pesada pasta de documentos que carregava para o ex-senador, à altura de 1968), homem que, até semanas atrás, ele bajulava e elogiava insistentemente. Exemplo: elogiou Arthur Virgílio Filho, há pouco, em Brasília, diante do deputado Fernando Coelho e do Presidente Ulysses Guimarães. Lucena é inconsequente, pensa que a coerência morde.

3.1 – meu pai, todos sabem, é homem de projeção nacional, que ocupou cargos de relevância nessa República. Não reuniu, contido, condições materiais para parar de trabalhar; o Lucena não compreende que pagar as próprias contas é difícil conforme o nosso povo sofrido lhe poderá atestar, no dia-a-dia de luta pela sobrevivência.

4 – Sabem a razão de todas essas injúrias? Bem, há interpretações contraditórias dadas ao caso. Meu pai, por exemplo, o crê perturbado mentalmente. Não excluo essa hipótese, mas a considero insuficiente. Para mim, o homenzinho tentou desviar atenção do povo para assuntos outros que não a sua confissão desavergonhada – que vexame, na frente de Paulo Brossard, Ulysses, Freitas Nobre, Fernando Coelho – de que vetava Queiroz, por ser “inimigo do dono da empresa da qual dependo”. Um dependente, um menor de idade aos 40 anos, um joguete, perigoso (joguete que ostenta mandato popular).

5 – Se necessário, relatarei a situação “digna” que Lucena tomou com Paulo Sampaio, ex-deputado companheiro cuja salvação me enternece, talvez o mais leal dos amigos com que contava o decadente político. Vai depender do comportamento adotado, doravante, pelo Quixote, que, por sinal, vai acabar sem Sancho Pança. E observem, é importante o detalhe, que o Paulo está por aqui mesmo em Manaus, felizmente bem vivo, lúcido, ao nosso lado na tarefa de construir um partido onde os Lucenas no máximo, sirvam para distrair os militantes sérios, com as gracinhas que costuma fazer. Que ele é engraçado, todos concordamos, não? Uma figura do século passado, trêmulo empertigado artificialmente, falando sempre em tom discursivo, leitor de orelha de livros, enfim, uma figura folclórica…

6 – Outro dia, dizia eu, que o Lucena está imobilizado por mim numa prateleira, qual mosca que a aranha Ele faz tudo que eu quero, porque é péssimo no jogo de xadrez; e não é pela sua falta de cultura não, mas pela ausência de inteligência, coisa bem diferente. Estou seguro de que Lucena está na ladeira, empurrado pelos seus sentimentos mesquinhos e pelas suas convicções fascitóides – ele vê comunistas embaixo da cama, às vezes confundindo o período com o Gregório Bezerra – em direção à derrota política nos próximos embates.

7 – Aviso aos amigos de Lucena; não o prendam em conversas que ultrapassem às 22 horas, pois prejudicá-lo-ão agindo assim; o homem é um sentenciado a quem a justiça sequer permite ir a uma sessão das dez. condenado por bravura? Não, claro que não. Condenado por calúnia. O Andrade Netto levou-o à condenação, no que fez bem. Outro desafeto de Fábio, com quem me indispus totalmente em 78 para proteger nosso Cantinflas, preferiu aplicar-lhe feroz sova no meio da rua. E o Lucena ainda me fala em pistolas, citando um filósofo para mim desconhecido, o Ringo que deve ser seu livro de cabeceira. Disse-lhe o ex-senador Arthur Virgílio Filho que “pistola só se atira na mão de Homem”; discordo outra vez de meu pai: mulher atira também, se tiver coragem; quem não atira é o Fábio…

8 – O deputado Damião Ribeiro queixou-se para Arthur Virgílio Filho de que eu, segundo a versão do Quixote, teria vetado o nome dele (Damião) em Brasília. Recado para o ilustre deputado: mentira deslavada do dependente de empresas, pois, Fernando Coelho é testemunha, sugeri o seu nome como capaz de conciliar os grupos de Evandro Carreira e Mário Frota.

9 – Quanto desprezo Lucena demonstra sentir pelos homens idosos! Isso ficou evidenciado quando afirma estar saído meu pai de um sarcófago. Que absurdo, que desrespeito a uma pessoa mais velha, que, até bem pouco, lhe merecia rasgados elogios. Lembro-me ao tresloucado senhor que Ulysses Guimarães, Barbosa Lima Sobrinho e Sobral Pinto são idosos, mais idosos que Arthur Virgílio Filho. E mesmo ele, Fábio, está precocemente envelhecido, física e intelectualmente. Pelo menos já está atuando na cruzada anticomunista, em aliança tácita com o CCC e a TFP. Já imaginaram o Fábio vestido de vermelho, todo paramentado, portando aquelas bandeirolas e perambulando pelas ruas a recolher assinaturas contra D. Heldez Câmara e D. Pedro Casaldáliga?

10 – Para Lucena, meu pai, que em verdade, não chegou aos sessenta anos é um “octogenário”. É defeito, porventura, ter-se 80 anos? Onde o meio-termo, se Lucena odeia os jovens – pela pujança e disposição física – e, também os velhos? De quem gosta Fábio Lucena? Quem é seu amigo de verdade, acima de qualquer interesse? É triste, mas o odiento vereador já está vendo monstros fantasmagóricos. Se não tomar cuidado, terminará pelas ruas proferindo discursos que ninguém ouvirá, abafados pelo barulho da risadaria pública. Seu caso é clínico, ninguém tenha ilusões.

11 – De forma pusilânime, Lucena tentou-me incompatibilizar com a deputada Beth Azize, de quem estou afastado politicamente, mas contra quem nada tenho a nível pessoal. Mais do que ninguém, o enfermo sabe que não fui eu quem difamou a deputada; tenho até os recortes que a acusam de coisas terríveis, como tive o cuidado de arquivar, igualmente a enérgica resposta de Beth. Aliás, a esse respeito, recordo ao povo e a Beth Azize que cheguei a defende-la; certa vez, fui, aliás, o único a fazê-lo – a lucenada toda calada – quando o adversário, meu amigo pessoal Josué Filho, o questionou em 78. Tenho o grave defeito de possuir boa memória e, claro, o hábito de colecionar papel velho. Quanto a estar em débito político com a deputada, sei que nem ela própria crê nisso. O que ocorreu de fato é que ela e eu fizemos alguns trabalhos conjuntos, com vistas ao pleito passado, dentro dos quais cumpri integralmente todos os compromissos assumidos. Não sou de difamar mulher. Posso provar, moço!

12 – No seu desvario, o “herói” de primeira instancia andou escrevendo que eu teria pintado muros, durante a ultima campanha, com insultos à virilidade de outros candidatos, entre os quais o deputado federal Mário Frota. Não acredito que exista uma só pessoa, no Amazonas e por onde mais eu ande que acredite na invencionice. Nem eu, nem Lucena somos homens de pintar muros com desaforos a quem quer que seja, eu porque não sou homem disso e ele pela notória inaptidão física: Lucena, tinta e pincel em punho, faria uma borradeira dos diabos e chegaria fantasiado em casa.

Lucena não entende o mundo que o envolve. Pensa que são bonitas essas polemicas estéreis e provincianas. Fábio Lucena, inegavelmente, está fora da linha da história: é o cowboy assaltando não mais a diligência, mas a locomotiva inexpugnável, fora de época, superado, teimando em deter o giro do mundo.

Faço-lhe uma sugestão: que discuta os problemas sócio-políticos do nosso Estado, ou então, suspenda essas tolices pelo jornal. Está descambando para o terreno particular e o novo nada tem a ver com isso. Se é político, discutamos. Se é particular, dou-lhe meu endereço, à Av. 7 de setembro, 1251, apto 1105 (Edifício Antônio Simões, faço questão de explicitar para que o “Pingo” tropicalista não diga que não achou o prédio), Centro, Manaus, Amazonas, Brasil, onde aguardo valentes e covardes; esta ultima ressalva retira qualquer empecilho à presença do eterno vereador.

No mais, que Lucena vá discutir com os seus parceiros de dama, porque o meu propósito é defender a Amazônia das multinacionais às quais Fábio é vinculado – ele é dependente, sabem? – e submisso. O Amazonas está ciente de que ele para se manter na crista da onda, critica um Di Carli, uma Raymond, mas, logo em seguida, se põe de joelhos diante dos tubarões da SUFRAMA. Em outras palavras, persegue a sardinha, deixando livre o tubarão, que é todo esse complexo de penetração do capital estrangeiro na Amazônia.

Eis porque o combate. É que Lucena não reúne condições ideológicas para formar uma frente democrática. Primeiro porque é fascista e segundo porque, como todo bom dependente, é obrigado a escolher os adversários.

Fique evidente que não sou homem de retaliações pessoais. Não as procuro, porque são ridículas e inúteis. A única vitória que estamos alcançando na luta contra o enfermo reside no fato de que ele está prestes a perder, de vez, a credibilidade junto ao povo. No mais, nada ficará dessas desavenças, que são o clima de Lucena. Comigo, não! Meu clima é o da luta séria e constante. Em relação a Lucena, e serei claro agora, não descansarei enquanto não demonstrar a todos que ele é tão inimigo das teses populares e democráticas quanto Franco, Geisel e Salazar. Não se admitirá mais que pose de “progressista”, sou capaz até de apostar. No mais, anotem a profecia: Lucena já não conta com a benevolência das camadas mais esclarecidas da população; não recebe nenhum tipo de apoio das lideranças sindicais não-pelegas; é repudiado pelos estudantes; é ridicularizado pelos militantes das organizações de defesa da Amazônia; não é considerado pelos homens da igreja, que empunham a Teologia da Libertação; no meio do povo, entre outros, Gilberto Mestrinho o esvazia inteiramente, etc. Ia esquecendo a profecia, dividida em duas partes:

a) Lucena vai-se tornar, dentro em pouco, direitista declarado e ainda mais ferrenho;

b) Lucena vai sair da política em 82 derrotado para a Câmara Federal (se disputar coisa melhor, estarei no seu calcanhar para lembrar as acusações que já fez a Joel Ferreira) e, a partir daí, a queda será vertiginosa. Perderá amigos, mordomias e, no máximo, virará gazealheiro de aluguel, desses que, por qualquer “de cá aquela palha” se dispõe a denegrir a honra de qualquer pessoa. Hoje ainda não é assim, pois Lucena, vivendo seu mundo de ilusões, imagina poder exigir um pouco mais de palha.

Agora, Fábio, volte para a prateleira! E fique quietinho, aguardando que eu o recolha de novo. E não se entristeça, porque não tenho raiva de você; apenas sei imprescindível o trabalho de saneamento a que me dispus. Seria, aliás, incoerente devotar ódio a alguém como você. Se eu fosse psiquiatra, meus serviços profissionais não custariam um tostão. Como sou político, lamentando que ninguém o haja tratado rigorosamente até hoje no campo médico, sou forçado a desmascará-lo. Agora chega de conversa; volte para a prateleira e só me saia de lá quando criar coragem moral para atacar o prefeito da capital, a quem você deveria opor com dignidade e nunca fazer o triste papel de orador/bajulador, conforme posso provar a qualquer momento.

Aviso aos navegantes: acabo de receber os anais da Câmara Municipal (reuniões de 03 a 31 de maio de 1976). Tem a história de um vereadorzinho meio desequilibrado que tapou o nome do MDB, incrustado na bancada, com uma camisa de uma firma comercial. Adivinhem o nome da figura…! Finalmente, a Câmara contratou imoralmente um supervisor jurídico.

Transcrição do Jornal A Notícia de 30 de janeiro de 1980, p. 11.

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