4 de março de 2015 às 13:00.

Série Histórica das Eleições de 1976

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CANDIDATOS DA ARENA ACABAM COMÍCIO DO MDB EM S. FRANCISCO

Sábado à tarde, depois de fartamente noticiado o local do comício do MDB para aquela noite, alguns candidatos se dirigiram ao bairro de São Francisco, em frente à Igreja e começaram as primeiras providências para a realização da concentração do partido de sábado à noite. No entanto, à tarde mesmo já era visível a provocação de candidatos arenistas, pois no mesmo local escolhido pelo MDB e já divulgado pelos volantes, foi colocada, uma faixa do candidato Carrel Benevides principal responsável pelos tumultos naquela noite que tiveram consequências as mais drásticas. Mesmo assim, sem dar qualquer importância à provocação de Carrel Benevides que pagou uma turma de moleques do bairro para impedir a realização do comício do MDB, o comício foi iniciado, com a faixa do candidato arenista bem próximo ao palanque do MDB. Por volta das 21h30min, quatro carros e uma Kombi, dois deles com sistemas de auto falantes se aproximaram do local do comício, tocando músicas do partido arenista e gravações feitas no intuito de agredir os candidatos do partido da oposição. O barulho foi tão grande que o candidato Francisco Queiroz que fazia o discurso quase não era ouvido. Dirigindo dois carros estavam os candidatos Carrel Benevides, acompanhado de uma senhora gorda e Josué Filho, que dirigiram seus carros para o meio do povo no intuito de fazer acabar o comício do MDB. Tal atitude de provocação máxima fez com que o deputado federal Antunes de Oliveira se aproximasse dos candidatos arenistas e lhes pedisse que não fizessem aquilo, que se retirassem do local para evitar o tumulto, porque o MDB estava ali fazendo comício sob amparo legal e tinha o direito de exigir que sua concentração não fosse perturbada. Os dois candidatos ao invés de se retirarem começaram a dizer que no MDB        não havia homens e que se algum houvesse que fossem apanhar. Carrel Benevides usava seu auto falante para dizer toda a sorte de palavrões contra os candidatos e contra o povo do bairro de São Francisco. Josué Filho ficou a distribuir seus cartazes políticos e a convidar o povo que ali estava para ir ao comício da Arena e como todos reagiam chamando-lhe de palhaço, covarde e “meu filhinho”, também passou a insultar todo mundo jogando seu carro contra o povo. Carrel Benevides deérie u uma marcha ré no meio da multidão que resultou em dois atropelamentos. Uma senhora com a perna quebrada foi levada ao pronto socorro no carro de um candidato do MDB. Uma com a cabeça quebrada em virtude de uma enorme pedra que os moleques que acompanhavam a caravana homicida de Josué Filho e Carrel Benevides, sangrava sem parar e foi socorrida pelos familiares da candidata Beth Azize, que se encontravam no comício. O povo revoltado com a molecagem e atrevimento dos candidatos arenistas cercou seus carros, começaram a dar murros na cara deles forçando a entrarem no carro e se retirarem. Muitos candidatos para espantar os invasores começaram a soltar fogos para o ar, barulho que se misturou ao barulho das balas que Carrel Benevides disparava de eu revolver na direção do povo. Crianças foram feridas, senhoras apedrejadas. Uma anciã desmaiou e teve que ser estendida no chão.

Tudo isso causava mais revolta ainda no povo do bairro que havia se concentrado em frente à praça para assistir ao comício do MDB. A faixa do candidato Carrel Benevides foi incendiada por um homem do povo que chegou ao local com um balde de querosene, derramou sobre a faixa e esta se desfez debaixo das vaias dos populares. Os carros da caravana homicida se retiraram empurrados pelo povo que cantava em coro: MDB, MDB, MDB. E se referindo à Josué Filho gritavam: Renuncia, renuncia, renuncia!

Os moleques contratados por Carrel Benevides, para ajudar-lhe na tarefa inglória e covarde, em represália pelo fato de o povo ter queimado a faixa deste candidato, se aproximaram da faixa da candidata Beth Azize com o intento também de incendiá-la. Os familiares de Beth Azize que sempre a acompanham, em número de mais de 30 se acercaram da faixa. Surgiu um moleque com uma lata de gasolina que vendo a reação se apavorou e fugiu do local. A candidata Otalina Aleixo foi empurrada fortemente com um pontapé pelo candidato Carrel Benevides indo parar no chão. Também o deputado Antunes de Oliveira quase foi esmagado por Carrel e pelos moleques dele e de Josué Filho, levando uma estúpida queda. O candidato Raimundo Nina sofreu uma lesão no rosto e foi conduzido ao pronto-socorro acompanhado de Armando Freitas que deu entrada de queixa no Distrito Policial competente.

O alvo mais visado era a candidata Beth Azize. Insuflados por Carrel e Josué Filho os seus moleques tentaram se aproximar do carro da candidata com o intuito de agredi-la. No entanto, seus familiares cercaram o carro impedindo que se aproximassem. Foi uma cena de fazer inveja aos filmes de faroeste. E como sempre os bandoleiros saíram vencidos porque o próprio povo do bairro foi quem tomou a defesa dos candidatos do MDB, os quais com muita prudência e equilíbrio evitaram um massacre contra o povo do bairro de são Francisco.

O mais lamentável de tudo isso é a triste omissão da polícia. O deputado federal Joel Ferreira tomando conhecimento do clima de provocação desde a tarde, quando os candidatos do MDB arrumavam o local para o comício, desde às 19 horas tentou conseguir junto ao 3º DP a ajuda da polícia, sem nenhum êxito. Alguns candidatos, logo que começou o tumulto aprovado por Josué Filho e Carrel Benevides, foram ao 1º BPM e conseguiram que um carro da polícia militar ali chegasse quando tudo já estava por terminar. Mesmo assim a polícia só permaneceu dois minutos no local e logo se retiraram, enquanto outros tumultos se registravam em face de ter permanecido no local alguns elementos do grupo de Carrel Benevides para tumultuar o comício até o seu final.

Beth Azize quando foi anunciada para falar pipocaram foguetes no ar, saído das portas dos moradores do bairro. E quando ela levou sua mãe, uma senhora de cabelos brancos e porte corajoso, para o palanque e mostrou-a ao povo do bairro foi ovacionada durante 10 minutos.

Transcrição do Jornal A Notícia de 09 de novembro de 1976.

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